O cante flamenco não ficou parado. Enquanto alguns continuam a imaginá-lo como algo de outra época, uma geração de vozes levou-o a teatros, festivais e públicos que jamais teriam pisado uma peña. O flamenco de hoje soa a tradição, sim, mas com o olhar posto muito longe.
O cante flamenco hoje: tradição com projeção mundial
Os anos 90 foram o grande estouro: o nuevo flamenco, os cruzamentos com outros estilos, a chegada às tabelas de êxitos. É dessa década que vimos, e quem quiser entender o presente faria bem em rever antes os cantaores flamencos dos anos 90. Porque o que acontece agora é, em boa medida, a sua herança.
O que distingue os cantaores do século XXI é o equilíbrio. Bebem das fontes mais puras — a Niña de los Peines, Camarón, Morente — mas não têm medo dos grandes teatros, das colaborações inesperadas nem de levar o cante a lugares onde antes não chegava. Estrella Morente e Marina Heredia, que já despontavam no final dos anos 90, continuam em plena forma e fizeram de ponte entre gerações.
Israel Fernández
Se há um nome que resume o cante jovem de hoje, é o seu. Nascido em Toledo mas de raiz cigana e som muito jondo, Israel Fernández conseguiu algo difícil: que a crítica mais ortodoxa o respeite e que o público jovem encha tudo. O seu disco Amor, ao lado do guitarrista Diego del Morao, foi um daqueles trabalhos que põem toda a gente de acordo. Voz rota, antiga e nova ao mesmo tempo.
Arcángel
De Huelva, Arcángel é uma das vozes mais versáteis do panorama. Domina o cante clássico como poucos, mas também se atreveu com a música barroca, com orquestras e com projetos que ampliam as fronteiras do flamenco sem o trair. O seu fandango de Huelva é referência. Quando canta, nota-se a escola e nota-se a cabeça.

Arcángel, uma das grandes vozes do cante flamenco atual. Foto: Rafa Manjavacas / deflamenco.com
María Terremoto
O apelido diz tudo: é neta de Terremoto de Jerez e herdeira de uma das maiores sagas do cante jerezano. Mas María Terremoto não vive da herança. Ganhou o seu lugar com uma voz pessoal, corajosa, que soa ao Jerez de sempre e a mulher jovem do século XXI. É, provavelmente, o melhor exemplo do relevo geracional do cante.
Rocío Márquez
Ganhou a Lámpara Minera muito jovem e desde então não parou de crescer. Rocío Márquez tem uma técnica arrebatadora e uma curiosidade que a levou a explorar os limites do flamenco, cruzando-o com a eletrónica e a experimentação sem nunca perder o fio com a tradição. Representa essa parte do cante atual que olha em frente sem se soltar das raízes.
Onde ouvir o cante flamenco atual ao vivo
Os discos estão bem, mas o cante entende-se de verdade quando o temos a poucos metros: a voz sem microfone pelo meio, o quejío que arrepia a pele, o silêncio do público antes do remate. Isso só acontece ao vivo.
No Cardamomo, referência do flamenco em Madrid desde 1994, o cante é o coração de cada noite. Nem sempre estarão os nomes desta lista — são figuras que enchem teatros — mas sim o mesmo cante vivo do qual eles bebem, na boca dos artistas que cada noite se deixam a voz sobre o palco. A melhor forma de entender o flamenco de hoje é ouvi-lo cantar.